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A Ermida de São Romão ergue-se sobre uma elevação, ou plataforma, artificial, no interior da qual se registam importantes vestígios arqueológicos romanos e pré-históricos.
No seu todo, trata-se, sem qualquer dúvida, do principal conjunto histórico-monumental da Freguesia de Algueirão - Mem Martins e, no seu género, de um dos mais significativos do Concelho de Sintra.

Os vestígios pré-históricos ali existentes são ainda mal conhecidos, apesar de objecto de um estudo prévio e respectiva publicação; não é de excluir, contudo, a sua directa relação com os vestígios arqueológicos da Pedreira da Cavaleira, descobertos em 1975, atribuíveis ao Calcolítico Inicial que corresponderiam, muito provavelmente, a um povoado, entretanto desaparecido, devido à laboração da pedreira.
A época romana, à qual pode eventualmente pertencer a referida plataforma artificial e de muitas estruturas que nela permanecem, evidencia-se através de um grupo bastante representativo de inscrições datáveis do século I e II d.C., retiradas das ruínas da ermida em 1956. Trata-se de um túmulo cupiforme (do latim cupa = barrica; em forma de barrica) completo com a seguinte inscrição: Aqui jaz Marco Estácio Máximo, da tribo Galérica, filho de Marco (M.A.S.M.O. XC), que integrava seguramente uma necrópole incinerária romana nas proximidades, dado existirem outros vestígios recolhidos em Lourel; e de uma área consagrada aos Deuses Manes (M.A.S.M.O. XCII), encontrada a meio da alvenaria que compunha o altar da Ermida. Foi ali colocada em posição invertida e depois picada a inscrição latina.

Não subsistem dúvidas de que este lugar foi importante durante a Romanidade e tal facto parece, inclusivé, ter condicionado o orago ao qual se encontra consagrada a Ermida: São Romão, ou seja 'Santo Romano'. Estamos, evidentemente, perante uma precoce cristianização de uma realidade pagã, ligada a antigo culto dos mortos, à época romana.
Tanto quanto sabemos e perante os dados arqueológicos disponíveis, a ermida propriamente dita foi fundada ainda durante a Alta Idade Média. Contudo, o primeiro registo escrito que refere a ermida, data de 1253, quando o Bispo de Lisboa, D. Aires Vasquez, estabelece novas demarcações da Diocese Olissiponense e das Paróquia de Sintra; esse documento refere-se a: heremitagium Santi Romani, como fazendo parte da Paróquia de São Pedro de Penaferim.
Posteriormente, em 1712, a ermida pertencia à Freguesia de Santa Maria; 1758, mas Memórias Paroquiais de São Pedro lê-se: «O lugar de S. Romaó, que se compoem de 6 fogos [casas] em que / habitaó 15 pessoas: Tem este lugar uma ermida da invicaçó / de S. Romão, a qual está já no limite da freguezia de / S. Maria, deste arrabalde de Cintra, e tem hum Eremi / taó, que é freguez desta minha freguezia de S. Pedro; / e he aministrada a Ermida, e aprezentado o ermi / tão pella collegiada de S. Martinho da Villa de Cintra./» (AZEVEDO, 1982:168).
Em 1760, a Ermida integrava a Paróquia de S. Martinho, como podemos aferir no Livro de Visitações (PEREIRA, 1980) que refere: «S. Romão no lugar do Lourel é do povo». No que resta do Cruzeiro encontra-se gravada a data de 1768.
Em 1911 em Auto de Arrolamento, a Comissão de Arrolamento dos Bens Eclesiásticos no concelho de Sintra, constituída por Alípio Simões Alves, Jayme de Gouveia Sarmento e Joaquim Rodrigues Ferreira, mencionam no verbete que a ermida está já em completa ruína.
Em 1921, a ruína era praticamente total. Félix Alves Pereira encontrou a abóbada da capela-mor em derrocada (F. A. PEREIRA, 1975:171-176).
Visitámos o que resta da Ermida de S. Romão várias vezes ao longo de mais de uma década. A nossa primeira visita ocorreu em Setembro de 1986, no decurso de uma prospecção arqueológica e histórica na Freguesia de Algueirão - Mem Martins. De pé, estava então, parte das paredes. Toda a fachada principal desapareceu. Do arco de cruzeiro nem sinais. Nos cantos extremos da capela-mor duas mísulas de lavor gótico (séc. XV) permanecem no seu lugar de origem embora mutiladas. Todo o chão do templo é lajeado, assim como as dependências anexas do lado do Evangelho. Do lado da Epístola, na capela-mor, uma janela quadrangular, obra dos finais do século XVIII, mantém-se intacta e assume-se como a antítese à ruína generalizada do edifício. Nos topos exteriores da abside, dois contrafortes desmoronam-se. Defronte da entrada, diversas cantarias aparelhadas serviram de base de arranque ao cruzeiro. Em volta das ruínas, pedras amontoadas, muitas delas aparelhadas. Nas sucessivas visitas o cenário foi sempre constante: uma lenta derrocada promovida pela fúria dos elementos e da incúria dos homens.

Perto da Ermida do casal de S. Romão, existiu uma construção antiga (século XVI ?), demolida para dar lugar a uma residência. Uma moradora do local referiu-nos que o antigo edifício pertencia a freiras e tinha na sua construção cantarias como as dos conventos. Com efeito, na casa ao lado, servindo de verga a um portão, lá estava uma verga de lavor manuelino. Existe a possibilidade de tais cantarias terem pertencido à Ermida. Temos notícia de, em 1956, a população local ter iniciado uma subscrição pública para reedificar o vetusto templo, com projecto de Norte Júnior. Existe também a notícia da existência de uma imagem de Nossa Senhora de Ó, proveniente da Ermida de São Romão, na posse de um morador de Lourel; ambas as informações são-nos dadas pelo Prof. Joaquim Fontes.
Em deliberação de 6 de Fevereiro de 1997, o executivo da Junta de Freguesia de Algueirão - Mem Martins requere à C.M. de Sintra a classificação da Ermida de São Romão como imóvel de interesse público, bem como uma intervenção arqueológica conducente à recuperação da ermida.
Bibliografia: ARQ. HIST. DE SINTRA; «Documentação Medieval - Núcleo Silva Marques».
AZEVEDO, José Alfredo da Costa, 1982; «Velharias de Sintra IV - Memórias Paroquiais de Sintra e seu Termo, de 1758»; edição da C.M. de Sintra.
FONTES, Joaquim, 1975; «Museu Arqueológico de S. Miguel de Odrinhas - Catálogo»; 3ª edição da C.M. de Sintra.
PEREIRA, Félix Alves, 1975; «Sintra do Pretérito»; 2ª edição da C.M. de Sintra.
PEREIRA, Isaías da Rosa, 1980; «Subsídios para a História da Diocese de Lisboa do Século XVIII - Arquivo da Cúria Patriarcal de Lisboa, Visitas de 1760, ms.54»; Lisboa: Acad. Port. de História (Subsídios para a História Portuguesa, 18).
CAETANO, Maria Teresa, 2000, «A Ermida de São Romão de Lourel e a Proposta de Norte Júnior», in: Escrita Vária, vol. 7 pp. 329 / 350. Edição da C.M. de Sintra.
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